Variedades

O Último Guardião da Rua

Há árvores que dão frutos.

Outras dão sombra.

E existem aquelas raras que oferecem algo muito mais que frutos e sombra: guardam o tempo.

No final da rua onde moro existe um velho pé de jambolão. Já passou dos trinta anos de vida. Foi plantado pelos primeiros moradores, quando a rua ainda era apenas um sonho desenhado entre o barro, o mato e a esperança de quem acreditava que ali construiria um lar.

Desde então, ele nunca foi apenas uma árvore.

Foi testemunha.

Foi abrigo.

Foi memória.

Quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir as gargalhadas das crianças que faziam dele o centro do universo. Corriam ao seu redor como se brincassem de abraçar o mundo. Escalavam seus galhos com a coragem que só a infância conhece. Voltavam para casa com os dedos e os lábios manchados de roxo, carregando nos bolsos alguns frutos e no coração a certeza de que aquele era o melhor lugar do bairro.

O jambolão via tudo.

Viu amizades nascerem.

Viu primeiros tombos, primeiros amores, primeiras despedidas.

Enquanto a cidade crescia, ele permanecia firme, oferecendo sombra sem pedir nada em troca.

Depois o tempo fez aquilo que sempre faz: passou.

As crianças cresceram.

Vieram os celulares, a internet, as redes sociais. As conversas deixaram as calçadas e migraram para as telas iluminadas. Os jogos passaram a caber dentro das mãos. As árvores deixaram de ser castelos, navios piratas e fortalezas para se tornarem apenas parte da paisagem.

Hoje existe um parquinho ali perto.

As risadas continuam existindo, mas já não chegam até os seus galhos.

Os adultos caminham apressados. Contam passos, calorias, quilômetros. Passam diariamente por aquele velho pioneiro sem perceber que ele continua ali, silencioso, contando uma história que ninguém mais parece ter tempo de ouvir.

Eu percebo.

Talvez porque também tenha envelhecido um pouco.

Talvez porque minha filha tenha crescido correndo ao redor dele, exatamente como tantas outras crianças fizeram décadas atrás.

Quase todos os dias passamos por ali.

Paramos por alguns instantes.

Conversamos baixinho, como quem visita um velho amigo.

Olhamos seus galhos já cansados, o tronco marcado pelo tempo, as folhas que parecem conversar com o vento numa linguagem antiga que poucos ainda conseguem entender.

E então uma tristeza mansa invade nosso coração.

Percebemos que ele também está envelhecendo.

Aquele gigante, que parecia eterno aos olhos da infância, agora revela as marcas dos anos.

E, pela primeira vez, compreendemos que até as árvores se despedem.

Não fazem alarde.

Não reclamam.

Não exigem homenagens.

Apenas permanecem ali, oferecendo sua última sombra enquanto esperam, serenamente, que o tempo conclua sua obra.

Meu coração chora.

Não apenas pelo jambolão.

Chora por tudo aquilo que estamos deixando para trás sem perceber.

Pelos lugares que moldaram nossa infância e que hoje atravessamos com pressa.

Pelas memórias que sobrevivem apenas porque alguém ainda se dispõe a lembrá-las.

Pelos pioneiros — pessoas e árvores — que sustentaram o início de uma cidade e que, silenciosamente, vão se despedindo enquanto seguimos ocupados demais para agradecer.

Talvez um dia aquele velho jambolão não esteja mais no final da rua.

Talvez reste apenas um espaço vazio onde antes existia um pedaço da nossa história.

Mas gosto de acreditar que as árvores verdadeiramente importantes nunca morrem por inteiro.

Elas continuam vivendo nas lembranças de quem encontrou abrigo sob seus galhos, nas mãos manchadas de roxo de uma infância feliz, nas histórias contadas aos filhos e, sobretudo, na certeza de que houve um tempo em que uma simples árvore era capaz de reunir uma vizinhança inteira.

Porque as cidades não são construídas apenas de ruas, casas e prédios.

Elas são feitas das memórias que escolhemos preservar.

E enquanto alguém ainda olhar para aquele velho jambolão com carinho, ele continuará florescendo no lugar onde nenhuma tempestade consegue alcançar:

o coração de quem aprendeu que a maior riqueza da vida não é o que permanece de pé, mas aquilo que permanece vivo dentro de nós.

*por Rosângela Méri – escritora, jornalista, e testemunha da história deste Jambolão, o guardião da rua, em Valparaízo II.

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