Brasil

Ecoturismo cresce 30% ao ano no Brasil e vira modelo de negócio para preservação e sustentabilidade

Com 25,5 milhões de visitantes em áreas protegidas em 2024, setor mostra que conservação ambiental é também estratégia econômica 

O Brasil é, por qualquer métrica, o país mais importante do planeta para o equilíbrio do clima: seis biomas, a maior floresta tropical do mundo, a maior reserva de água doce do planeta e cerca de 20% de toda a biodiversidade conhecida.

O seu enorme potencial verde enfrenta obstáculos, como o aumento de 482% das queimadas na Amazônia Legal e 70 projetos de lei no Congresso Nacional que ameaçam a proteção socioambiental segundo levantamento recente do Observatório do Clima.

É nesse cenário de protagonismo e contradição que o ecoturismo emerge como uma das respostas mais concretas para transformar conservação em desenvolvimento. Os números dão o tamanho do movimento: em 2024, as áreas protegidas bateram recorde histórico de visitação, com 25,5 milhões de turistas. O setor cresce a 30% ao ano no Brasil, acima da média mundial, e já representa 60% do faturamento de todo o turismo nacional, segundo a pesquisa Ecoar, do Sebrae em parceria com o Ministério do Turismo e a Abeta – Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura.

Sob escrutínio internacional, o país está na presidência da COP30 e das negociações climáticas globais até novembro deste ano.

“A preservação é muito mais do que uma pauta ambiental, e tem se mostrado, com urgência, como uma estratégia econômica viável para um país cuja riqueza real está viva em suas Unidades de Conservação, rios, fauna e flora. E entendemos que o ecoturismo é essencial nesse processo de conscientização e preparação para o futuro”, afirma Fernanda Dornelles, vice-presidente da Abeta.

A lógica que sustenta essa afirmação é simples e poderosa: floresta em pé, rios preservados e biodiversidade intacta deixam de ser apenas patrimônio ecológico e passam a ser base de modelos de negócio. “Quando bem estruturado, o turismo de natureza conecta conservação e desenvolvimento de forma concreta, gerando renda, valorizando comunidades locais e criando incentivos diretos para manter áreas de preservação intactas. É uma atividade que transforma ativos naturais em oportunidades sustentáveis de longo prazo”, reforça Luiz Vigna, diretor-executivo da Abeta.

Isso significa que floresta em pé, rios preservados e biodiversidade intacta deixam de ser apenas patrimônio ecológico e passam a ser base de modelos de negócio.

Três exemplos de associados da Abeta mostram na prática que é possível utilizar recursos naturais e consciência para construir projetos sem a exploração predatória.

Cerrado com propósito

No Jalapão, o Cerrado mais espetacular do Brasil virou produto de consumo rápido: chegar, fotografar o fervedouro, partir. A Praia Rica Expedições nasceu como uma recusa a esse modelo. Com grupos reduzidos, guias nativos e roteiros que trocam o carro por caminhadas no Cerrado, a operadora tocantinense redesenhou a lógica da viagem. Em 2025, a Expedição Meu Jalapão foi eleita pela Embratur e pelo Sebrae uma das 100 experiências mais qualificadas do Brasil para o turista internacional, avaliada por autenticidade, qualidade e sustentabilidade. Virou experiência oficial do Brasil.

Os roteiros integram farinhadas, produção de rapadura e manifestações culturais tradicionais e não são apenas uma atração folclórica, mas um exemplo para que o viajante entenda a biodiversidade, a memória e a comunidade viva do território. “O destino deixa de ser apenas um lugar bonito e passa a ser entendido como um espaço que precisa ser preservado”, explica a proprietária, July da Costa.

As práticas ambientais seguem a mesma lógica. A Praia Rica tornou-se a primeira operação de turismo do Tocantins a estruturar uma atuação carbono neutro, compensando mais de 14 toneladas de emissões em 2025. Como signatária da Declaração de Glasgow para a Ação Climática no Turismo, ao lado da ONU, assumiu o compromisso de zerar emissões até 2050. Os fervedouros noturnos, prática aceita pelo mercado, mas incompatível com o que a empresa entende por turismo responsável, foram abolidos do roteiro por conta do impacto sobre a fauna.

70 mil razões para preservar

Em Alta Floresta, no coração do Mato Grosso, havia pasto onde hoje há floresta. A Fazenda Anacã passou anos revertendo o que a pecuária havia destruído: em cerca de 290 hectares, foram plantadas 70 mil árvores de espécies nativas. Em 2024, o território conquistou oficialmente o título de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) — uma unidade de conservação criada voluntariamente pelo próprio proprietário, com caráter de preservação permanente inscrito na matrícula do imóvel.

Para Fernão Prado, idealizador do projeto, a escolha nunca foi entre produzir e preservar. “Entendemos que nossa responsabilidade, embora sejamos uma empresa de turismo, é trabalhar e vivenciar a governança do meio ambiente no nosso território”, diz. O turismo é o veículo. A conservação é a missão.

A fazenda mantém parcerias ativas com prefeituras, secretarias e órgãos ambientais da região — e transforma cada visita em aula. A meta não é que o hóspede vá embora satisfeito, mas que vá embora diferente. “Fazemos com que o cliente entenda a importância de uma empresa de turismo com essa frente de proteção. E que ele leve essa consciência para dentro da sua própria empresa — mesmo que ela seja de outro setor.”

Um legado de 25 hectares

Em Prudentópolis, no interior do Paraná, Márcio Miranda transformou 25 hectares — boa parte deles cultivados no sistema de corte e queima — em Reserva Particular do Patrimônio Natural. Desde 2007, o Ninho do Corvo é uma unidade de conservação oficial, com mata protegida de forma permanente.

“É uma pequena parcela, mas está protegida. É um legado”, diz Miranda. A pousada ecológica produz praticamente 100% de sua energia com painéis solares, faz o uso consciente dos recursos hídricos, gerencia os resíduos com destinação correta e compra insumos de produtores da região. Todos os funcionários, colaboradores e guias são moradores do entorno e remunerados justamente. “A ideia é fortalecer a economia da ponta, a economia de base. Isso também é preservar.” Oito cachoeiras atravessam a reserva, algumas abertas à visitação, outras acessíveis apenas com guia. A natureza intacta é um produto que gera valor justamente por se manter preservado, tornando a conservação parte central do negócio.

Em 2021, o Ninho do Corvo recebeu o Selo Qualidade no Turismo do Paraná na categoria Ouro, sendo o único empreendimento da região a conquistar a certificação.

*ASCOM

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