Comunidade quilombola Mesquita, em Goiás, cobra retirada de fazendeiros após reconhecimento oficial do território
A comunidade quilombola Mesquita, localizada no município de Cidade Ocidental, vive um momento histórico às vésperas de completar 280 anos de existência. Situado a cerca de 50 quilômetros de Brasília, o território teve sua área oficialmente reconhecida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária no dia 19 de dezembro de 2025. A decisão confirmou que o quilombo possui 4,1 mil hectares, uma extensão aproximadamente 80% maior do que a área atualmente ocupada pelas famílias.
Com o reconhecimento formal, surge agora a principal expectativa da comunidade: a desintrusão dos ocupantes irregulares, entre eles fazendeiros ligados ao cultivo de soja. A presença desses produtores rurais, segundo os moradores, compromete não apenas a integridade territorial, mas também a segurança das famílias e a preservação ambiental do Cerrado.
Atualmente, cerca de 1,1 mil famílias vivem no Quilombo do Mesquita, o que representa mais de duas mil pessoas diretamente impactadas pela decisão do Incra. Para os moradores, a ampliação do território significa mais do que a posse da terra. Trata-se de garantir a continuidade de um modo de vida tradicional, baseado na agricultura familiar, no uso sustentável dos recursos naturais e na preservação da memória histórica do local.
Segundo Walisson Braga, jovem liderança quilombola, a retomada da posse integral da área é fundamental para frear o avanço do desmatamento provocado por grileiros e grandes produtores rurais. De acordo com ele, a exploração irregular da terra vem causando danos ambientais significativos, além de restringir o acesso da comunidade a áreas de plantio e circulação.
Para Walisson, a proteção da natureza está diretamente ligada à identidade cultural do quilombo. Ele explica que o uso sustentável do Cerrado sempre fez parte da relação da comunidade com o território, garantindo subsistência sem comprometer o equilíbrio ambiental. Com a redução das terras ao longo dos anos, muitos moradores foram obrigados a deixar suas atividades tradicionais e buscar subempregos fora da comunidade.
A expectativa agora é que o reconhecimento estimule o retorno à agricultura e fortaleça a economia local. A produção de alimentos, segundo os quilombolas, sempre foi um dos pilares da comunidade e também teve papel importante na história da região, especialmente durante a construção de Brasília.
A notícia foi recebida com alívio e emoção pelos moradores, que já se organizam para celebrar a conquista durante a tradicional Festa do Marmelo, marcada para o dia 11 de janeiro. O fruto é um símbolo da resistência quilombola, além de representar uma importante fonte de renda para os agricultores locais. A celebração deve reunir moradores, apoiadores e visitantes em um momento de afirmação cultural e histórica.
O Incra destacou que o reconhecimento do território do Quilombo do Mesquita representa um passo relevante no processo de reparação histórica aos descendentes de pessoas escravizadas. Em nota, o instituto ressaltou que a área ocupada desde o século 18 teve importância estratégica para a construção da capital federal, especialmente no apoio logístico aos trabalhadores que migraram para a região.
Com o reconhecimento do território, a comunidade quilombola do Mesquita reforça sua luta pela permanência na terra, pela preservação ambiental do Cerrado e pelo respeito à sua história. A retirada dos ocupantes irregulares é vista como o próximo passo essencial para garantir dignidade, segurança e futuro às famílias que mantêm viva uma tradição de quase três séculos no coração do Brasil.
*Com informações Agência Brasíl

